Li "O Deus das Moscas" de William Golding. Não sei se seria essa a ideia do autor, mas Golding consegue condensar numa grande metáfora a história da construção da vida em sociedade tal como a conhecemos hoje. As crianças, protagonistas da história que se encontram numa ilha deserta entregues a si próprias e têm que criar regras e sistemas de liderança, representam os homens adultos e a sua necessidade de viver em sociedade. No entanto, essa necessidade de auto-organização típica dos sistemas vivos, e em particular o caso dos sistemas de comunicação/poder humanos, não estão isentos de dificuldade. É isso que Golding nos tenta mostrar.
A fina casca da racionalidade e da civilização (os tabus e a protecção das instituições - pais, polícia, educação - que ainda pairam sobre a cabeça das crianças) pode quebrar-se quando as forças emotivas, como o medo, irrompem na clareira da mente. Em última instância uma força bruta, insondável, escondida na própria natureza do ser humano impele-o à violência, ao poder, ao prórpio instinto sanguinário. É com isso que temos que lidar.
Neste ponto "O Deus das Moscas" sustenta a tese de que o homem é o lobo do homem. Os seres humanos são por natureza capazes do pior. O amor e outras emoções positivas similares tendem a esboroar-se perante a própria irracionalidade/agressividade inerente ao ser humano. Em meu entender, Golding faz uma leitura demasiado negativa da natureza humana. Se pensarmos na própria história evolutiva do homem temos boas razões para considerar a existência, como defende Humberto Maturana, de uma biologia do Amor. A questão é que a existência dos seres humanos dá-se, desde há milhares de anos, no domínio social e o fenómeno social só é possível pelo fenómeno do Amor, ou seja, pela aceitação do outro junto de nós. É claro que essa aceitação nem sempre configura aquilo a que licitamente chamamos Amor, no entanto, mesmo assim, a aceitação do outro é um fenómeno enraizado na própria biologia do ser humano. Sem o outro nós próprios não chegaríamos a ser humanos. Mesmo que a violência e a hipocrisia por vezes escureçam as relações humanos, a necessidade de uma vida em sociedade é uma das necessidades mais básicas e fundadoras dos fenómenos que constituem um ser humano capaz de falar, pensar e ter consciência. O nosso mundo é sempre um mundo construído com outros.
o lobo
Afixado por: valquiria em abril 29, 2004 05:16 PMlobo
Afixado por: valquiria em abril 29, 2004 05:18 PM